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A ilusão da liberdade

O sonho de muitos brasileiros é ter o seu negócio ou trabalhar por conta própria. Nessa condição eles esperam ter uma vida mais segura e mais livre para ter tranqüilidade e poder ficar um bom tempo com a família. Daí os nomes de "profissionais liberais" e "consultores independentes". Será que é assim mesmo? As pesquisas indicam que não. São muitas as pressões que rodeiam os que prestam serviços de forma individual - os independentes.

Nesse nicho, a concorrência é enorme. Os contratantes (empresas e pessoas) buscam o mais alto nível de competência pelo mais baixo nível de remuneração. Longe de ser ilimitada, a renda dos independentes é rigorosamente definida pelo mercado. Além disso, o prestador individual de serviços depende muito de uma boa rede de contatos para ter acesso às oportunidades de trabalho, o que demanda investimento de tempo e de recursos financeiros. Trata-se de uma longa caminhada até chegar a ponto de ser disputado.

Ao começar nessa carreira, o independente compreende logo que a vida de seus familiares depende exclusivamente de seus ganhos, que por natureza são incertos. A angústia de ficar parado o atormenta o tempo todo. O independente trabalha sempre pensando no próximo contrato, por saber que o atual pode não ser renovado. Esse profissional descobre também que o trabalho não é tão independente assim, pois, ao ser contratado por uma empresa, ele tem uma dependência técnica que muitas vezes é mais rigorosa do que a dependência jurídica - a do vínculo empregatício. De fato, muitos entendem logo que são amarrados às normas e exigências dos contratantes.

O seu controle do tempo é muito limitado. É comum o caso do contratante que se sente no direito de chamar o contratado a qualquer hora, o que gera grande aflição entre os que trabalham para várias empresas. Afinal, o tempo é um bem finito. Outra surpresa. A independência em relação ao quadro de pessoal das empresas contratantes é ilusória. Na maioria dos casos, os prestadores de serviços dependem de informações dos funcionários fixos, que com freqüência sonegam dados por temerem perder seus empregos para quem vem de fora. O ambiente passa a ser de tensão e desconfiança e, em muitos casos, chega ao conflito.
Outra ilusão diz respeito às jornadas de trabalho. Os independentes trabalham muito mais do que os empregados fixos que cumprem oito horas por dia e pronto. Ademais, os tempos de trabalho são irregulares, pois é de sua responsabilidade apresentar os resultados no tempo estipulado no contrato. Pontualidade é essencial para quem deseja ser respeitado e recontratado.

Para contornar o risco de cópia de seu trabalho - o que é inevitável - e vencer a concorrência, o profissional independente tem de estar sempre na frente na sua arte para, com isso, poder oferecer a novidade que os seus competidores não têm. Isso exige um investimento contínuo em atualização profissional.
Se as jornadas de trabalho são erráticas e se nos dias da semana não dão conta de terminar o trabalho ou de bancar as necessárias horas de estudo, a família tem de ser compreensível com a ausência do independente nos feriados e fins de semana. O sacrifício que é imposto à mulher (homem) e filhos produz sentimentos ambivalentes e desagradáveis.

Essa é a vida dos independentes. As incertezas de trabalho e de renda são estressantes. Os testes de qualidade são feitos em cima de cada tarefa. Ao menor erro, a reputação cai por terra e as oportunidades desaparecem. Para agravar a sua angústia, o governo brasileiro persegue os profissionais independentes por achar que eles fazem isso para gozar uma boa vida e burlar a legislação trabalhista, ignorando que a realidade mudou. As empresas modernas utilizam verdadeiras constelações de colaboradores: os empregados fixos para trabalhos contínuos e estratégicos e os profissionais independentes para tarefas especializadas. Todos são seres humanos e precisam de proteções.

José Pastore
Artigo publicado no Estado de São Paulo
Doutor Honoris Causa em Ciência e Ph. D. em sociologia pela University of Wisconsin (EUA). É professor titular da Faculdade de Economia  e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo. É pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e consultor em relações do trabalho e recursos humanos.
Site www.josepastore.com.br

 

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