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A frustração dos jovens

Não há nada mais frustrador para um jovem do que completar um curso, receber o diploma e não conseguir emprego. Esse é o caso de milhões de brasileiros que se formam em nossas faculdades.  A frustração aumenta em tempos de demanda crescente por profissionais qualificados como ocorre nos dias atuais, por conta da aceleração do crescimento econômico. No meu e-mail, multiplicam-se as mensagens de jovens que expressam o seu inconformismo diante desse quadro contraditório. Por que não conseguem emprego se têm educação muito acima da média da força de trabalho?


Além de sofrerem as consequências das escolas precárias em que estudaram, os jovens deparam-se com a resistência das empresas para contratar pessoas sem experiência. Esse é o problema. Cerca de 45% dos desempregados são jovens de 15 a 24 anos, um verdadeiro bolsão de desocupados. É desolador. Do lado das empresas, a busca da experiência é justificável. Mas convenhamos: como podem os jovens ter experiência se nunca trabalharam? E como adquirir essa experiência se não começarem a trabalhar?
Mas a alegação da falta de experiência é apenas uma parte da história real.


A outra parte se liga à nossa legislação trabalhista. Sim, porque as despesas para se contratar um jovem inexperiente são as mesmas que se aplicam à contratação de um profissional experiente (102,43% sobre o salário). Nessas condições, enquanto houver uma boa oferta de profissionais experientes, as empresas não têm estímulo para contratar jovens inexperientes. E, assim procedendo, perpetuarão a indesejável inexperiência. É um circulo vicioso entre a falta de contratação e a falta de experiência. Daí a indignação dos jovens e também de seus pais que desanimam ao ver um filho que estudou, se formou e que procura emprego e não acha.


São muitos os jovens que são levados a prolongar sua vida escolar ? o que é bom ? por falta de experiência para o trabalho ? o que é ruim. Como sair dessa armadilha? Como estimular as empresas a contratar jovens sem experiência para que deem início à carreira profissional?  Muito simples. A legislação brasileira poderia prever a admissão de jovens recém-formados com menos despesas de contratação. Se tais despesas caíssem, digamos, de 102,43% para cerca de 60% ou 65%, as empresas seriam estimuladas a admitir bons talentos que ainda não têm a necessária experiência.


Esse é o papel de um "contrato de formação", uma espécie de contrato de aprendizagem para quem acaba de se formar e nunca trabalhou. Um expediente desse tipo seria útil para os jovens, as empresas e a sociedade em geral. Por exemplo, um engenheiro recém-formado que viesse a trabalhar em uma Petrobrás, Vale ou Votorantim teria aí uma verdadeira escola para aprender o que não aprendeu na faculdade e uma valiosa fonte de referência para futuros empregos. Para as empresas, seria uma oportunidade de ouro para observar cuidadosamente o desempenho desses jovens antes de contratar os mais brilhantes de forma definitiva ? depois de expirado o contrato de formação que, evidentemente, teria vigência limitada de, por exemplo, 18 meses. Para a sociedade haveria um ganho valioso ao abrir para a juventude uma oportunidade de trabalho e de aprendizagem. Esses jovens seriam contratados legalmente, com as proteções da legislação trabalhista e previdenciária e recolhendo contribuições para a Previdência Social e outros órgãos, o que ajudaria bastante as finanças públicas.


A tarefa consiste em aprovar uma legislação específica para tirar o jovem desse indesejável círculo vicioso. Essa legislação seria, assim, a viabilizadora da experiência que é tão importante para o trabalho atual. Está aí uma sugestão para os candidatos neste ano eleitoral: contratos de formação. Não sou político. Mas, ao reduzir a frustração dos jovens e de seus pais, essa proposta me parece ser uma verdadeira usina de votos. O importante, porém, é implementá-la depois da eleição.

José Pastore
Artigo publicado no Estado de São Paulo em 16 de março de 2010.
Doutor Honoris Causa em Ciência e Ph. D. em sociologia pela University of Wisconsin (EUA). É professor titular da Faculdade de Economia  e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo. É pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e consultor em relações do trabalho e recursos humanos.
Site www.josepastore.com.br

 

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